José
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, proptesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você consasse,
se você morresse....
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?
Carlos Drummond de Andrade
quarta-feira, abril 20, 2005
segunda-feira, abril 18, 2005
the wavemen
www.wavemen.net

lucien zell's band @ prague

lyrics
So far, so close
I have passed through many lives
and of all the clouds that passed me by
only a puddle survives...
but the puddle reflects the skies.
A sunset is as beautiful as a sunrise.
So far, so close.
Come a little closer baby,
leave the rest of the world behind.
You don't need those plastic teachers
to polish your crystal mind.
If you're gonna follow someone,
don't follow the blind.
The truth is often friendly,
but it isn't always kind.
So far, so close.
It doesn't matter what you fake, you break, you take;
you can't know you've been sleeping until you're awake.
If you're lost in the labyrinth, take my hand.
What you love is more important than what you understand.
I used to believe in God's plan,
until I arrived at a great surprise:
God has no plan...
He prefers to improvise!
So far, so close.
Well, the face in the mirror
doesn't look much like mine;
but the grapes of wrath must be crushed
to blossom into wine...
more human is more divine!
So far, so close.
It doesn't matter what you fake, you take, you break;
you can't know you've been sleeping until you're awake.
Lucien Zell inside Wavemen
www.wavemen.net
lucien zell's band @ prague
lyrics
So far, so close
I have passed through many lives
and of all the clouds that passed me by
only a puddle survives...
but the puddle reflects the skies.
A sunset is as beautiful as a sunrise.
So far, so close.
Come a little closer baby,
leave the rest of the world behind.
You don't need those plastic teachers
to polish your crystal mind.
If you're gonna follow someone,
don't follow the blind.
The truth is often friendly,
but it isn't always kind.
So far, so close.
It doesn't matter what you fake, you break, you take;
you can't know you've been sleeping until you're awake.
If you're lost in the labyrinth, take my hand.
What you love is more important than what you understand.
I used to believe in God's plan,
until I arrived at a great surprise:
God has no plan...
He prefers to improvise!
So far, so close.
Well, the face in the mirror
doesn't look much like mine;
but the grapes of wrath must be crushed
to blossom into wine...
more human is more divine!
So far, so close.
It doesn't matter what you fake, you take, you break;
you can't know you've been sleeping until you're awake.
Lucien Zell inside Wavemen
TARA PERDIDA de Eduardo F.M.
Teatro Taborda - Lisboa - 31 de Março a 8 de Maio
www.egeac.pt/taborda
EDUARDO F.M.
Nasceu em 1949, vive e trabalha em Lisboa. Escola primária em Manteigas, sua terra natal. No final dos anos 70, em Lisboa, conclui, em horário pos-laboral, o 1º e 2º ciclos do antigo curso do liceu. Autocidacta na prática artística, a sua obra conta centenas de trabalhos de desenho e pintura. Expõe pela primeira vez em 1985, numa pequena mostra colectiva realizada na Galeria EMI/Valentim de Carvalho, Lisboa.
Só em Setembro de 2002, apresenta a sua primeira exposição individual, na Livraria Assírio e Alvim, Lisboa – antológica da sua produção dos últimos dez anos.
TARA PERDIDA
Um membro (perna ou braço), um tronco, uma cabeça podem funcionar isoladamente, podem querer dizer um corpo inteiro e querem certamente dizer uma força de alma qualquer que se procura reter, dominar, transformar noutra coisa. Uma cor confina com outra: um negro, um vermelho; um negro, um branco; um vermelho, um branco – e tudo o que partilham é essa fronteira onde se tocam e se cruzam, onde alternam e jogam o peso da imagem. Uma cena de confronto simétrico ou desenvolvimento rizomático (e as dimensões alongadas dos suportes são essenciais nesta discursividade em extensão e intensidade) pode querer colocar-nos no centro do mundo.
É um mundo fechado, rodando em torno de um eixo (um olhar desvia-se, o outro enfrenta-o), um mundo desdobrando-se em personagens que se mostram e se escondem, como um tecido plissado que se pode estender (explicar-se) perdendo espessura e depois reduzir-se de novo ao seu volume inicial.
João Pinharanda
A obra de Eduardo F.M. possui uma espontaneidade que a aproxima de alguns artistas exteriores ao surrealismo, mas que foram apreciados por este movimento pela importância que deram às associações insólitas entre as formas animais e as formas humanizadas.
Luísa Soares de Oliveira
www.artistasunidos.pt
Teatro Taborda - Lisboa - 31 de Março a 8 de Maio
www.egeac.pt/taborda
EDUARDO F.M.
Nasceu em 1949, vive e trabalha em Lisboa. Escola primária em Manteigas, sua terra natal. No final dos anos 70, em Lisboa, conclui, em horário pos-laboral, o 1º e 2º ciclos do antigo curso do liceu. Autocidacta na prática artística, a sua obra conta centenas de trabalhos de desenho e pintura. Expõe pela primeira vez em 1985, numa pequena mostra colectiva realizada na Galeria EMI/Valentim de Carvalho, Lisboa.
Só em Setembro de 2002, apresenta a sua primeira exposição individual, na Livraria Assírio e Alvim, Lisboa – antológica da sua produção dos últimos dez anos.
TARA PERDIDA
Um membro (perna ou braço), um tronco, uma cabeça podem funcionar isoladamente, podem querer dizer um corpo inteiro e querem certamente dizer uma força de alma qualquer que se procura reter, dominar, transformar noutra coisa. Uma cor confina com outra: um negro, um vermelho; um negro, um branco; um vermelho, um branco – e tudo o que partilham é essa fronteira onde se tocam e se cruzam, onde alternam e jogam o peso da imagem. Uma cena de confronto simétrico ou desenvolvimento rizomático (e as dimensões alongadas dos suportes são essenciais nesta discursividade em extensão e intensidade) pode querer colocar-nos no centro do mundo.
É um mundo fechado, rodando em torno de um eixo (um olhar desvia-se, o outro enfrenta-o), um mundo desdobrando-se em personagens que se mostram e se escondem, como um tecido plissado que se pode estender (explicar-se) perdendo espessura e depois reduzir-se de novo ao seu volume inicial.
João Pinharanda
A obra de Eduardo F.M. possui uma espontaneidade que a aproxima de alguns artistas exteriores ao surrealismo, mas que foram apreciados por este movimento pela importância que deram às associações insólitas entre as formas animais e as formas humanizadas.
Luísa Soares de Oliveira
www.artistasunidos.pt
domingo, abril 17, 2005
quinta-feira, abril 14, 2005
Michel Foucault, choses dites, choses vues
teatro na culturgest. lisboa
um espectáculo de Jean Jourdheuil e Mark Lammert
Um dispositivo reunindo um actor, um pintor e aquilo a que se convencionou chamar encenador, eis o ponto de partida de um trabalho formal utilizando os seguintes materiais: uma voz, um corpo, uma máquina arquitectónica, uma cor. Ao que se juntou, rapidamente, uma voz musical, a da "glass-harmónica". O texto foi elaborado a partir dos ensaios, das entrevistas, das conferências reunidas em Dits et Écrits e de uma intervenção radiofónica não publicada. Michel Foucault não saberia transformar-se em cena num autor ou numa personagem de teatro. Era preciso des-teatralizar para melhor espacializar e "re-presentar", de forma necessariamente abrupta e fragmentária, os motivos do seu pensamento. "Que importa quem fala, disse alguém, que importa quem fala" disse um dia Michel Foucault, citando Beckett, numa conferência intitulada "O que é um autor?". Esta questão, assim enunciada, vale para este espectáculo. A nossa ambição ao agir assim: interromper, durante uma noite, a transformação em ícone de Michel Foucault.
Jean Jourdheuil
Teatro
22 e 23 de Abril
21h30 Grande Auditório
Duração 1h00
Falado em francês com legendas em português
15 Euros
Até 30 anos: 5 euros
Programação paralela
21 de Abril, 18h30, Pequeno Auditório
Moi, Pierre Rivière, ayant égorgé ma mère, ma soeur et mon frère...
filme de René Allio (cenógrafo, pintor, realizador) a partir de um caso estudado por M. Foucault.
Apresentação de Jean Jourdheuil. Legendas em português.
22 de Abril, 18h30, Pequeno Auditório
A escrita, o espaço e o corpo
leitura encenada de textos de M. Foucault
com Jorge Silva Melo e Manuel Wiborg (organização J. Jourdheuil)
23 de Abril, 18h30, Pequeno Auditório
Debate sobre este espectáculo e a actualidade do pensamento de Foucault
com Philippe Artières (director do Centre Foucault), José Bragança de Miranda e J. Jourdheuil.
http://www.culturgest.pt/actual/michel_foucault.html
teatro na culturgest. lisboa
um espectáculo de Jean Jourdheuil e Mark Lammert
Um dispositivo reunindo um actor, um pintor e aquilo a que se convencionou chamar encenador, eis o ponto de partida de um trabalho formal utilizando os seguintes materiais: uma voz, um corpo, uma máquina arquitectónica, uma cor. Ao que se juntou, rapidamente, uma voz musical, a da "glass-harmónica". O texto foi elaborado a partir dos ensaios, das entrevistas, das conferências reunidas em Dits et Écrits e de uma intervenção radiofónica não publicada. Michel Foucault não saberia transformar-se em cena num autor ou numa personagem de teatro. Era preciso des-teatralizar para melhor espacializar e "re-presentar", de forma necessariamente abrupta e fragmentária, os motivos do seu pensamento. "Que importa quem fala, disse alguém, que importa quem fala" disse um dia Michel Foucault, citando Beckett, numa conferência intitulada "O que é um autor?". Esta questão, assim enunciada, vale para este espectáculo. A nossa ambição ao agir assim: interromper, durante uma noite, a transformação em ícone de Michel Foucault.
Jean Jourdheuil
Teatro
22 e 23 de Abril
21h30 Grande Auditório
Duração 1h00
Falado em francês com legendas em português
15 Euros
Até 30 anos: 5 euros
Programação paralela
21 de Abril, 18h30, Pequeno Auditório
Moi, Pierre Rivière, ayant égorgé ma mère, ma soeur et mon frère...
filme de René Allio (cenógrafo, pintor, realizador) a partir de um caso estudado por M. Foucault.
Apresentação de Jean Jourdheuil. Legendas em português.
22 de Abril, 18h30, Pequeno Auditório
A escrita, o espaço e o corpo
leitura encenada de textos de M. Foucault
com Jorge Silva Melo e Manuel Wiborg (organização J. Jourdheuil)
23 de Abril, 18h30, Pequeno Auditório
Debate sobre este espectáculo e a actualidade do pensamento de Foucault
com Philippe Artières (director do Centre Foucault), José Bragança de Miranda e J. Jourdheuil.
http://www.culturgest.pt/actual/michel_foucault.html
segunda-feira, abril 11, 2005
família
como te falar dos nossos silêncios dissonantes? como te falar. como. explicar-to. explicar-me. como.
primeiro apetece-me bufar-te. bufar-te. bufar-te que me empapa esse teu cristianismo. esse teu cristianismo feliz. sedimentado. sedimentado em milénios. sabes? encharcou. encharcou-se. impregnou-se devagarinho. devagarinho. sabes? apetece-me esfolá-lo. esfacelar a pele até que tudo minguasse numa sarjeta qualquer. ser-te sincero. ser-te sincero. e para isso preciso de o eliminar. eliminar. mas há esta infusão de racionalidade a que chamo. por agora. o impossível. talvez não só por agora mas por. para. durante. sempre. a impossível tarefa de esfarelar este nosso cristianismo da minha pele.
como escrevi: foram todos esses milénios de encrostação e ainda o meu nascimento. a infância. e o dia a dia ladeado de imposições. imposições semelhantes. semelhantes à educação que me ofereceste. a educação de arquitectar uma boa cofragem de personalidade. um molde apreendido ao longo de gerações. um molde certinho cujo desejo era regurgitar uma viga sem vícios. mas já percebeste. não é? sou um animal ácido de propriedade. ácido. e tenciono permanecer assim. assim. com várias vontades e uma fixação: esfolar. esfacelar. esfarelar. este cristianismo da minha pele.
e.e.
como te falar dos nossos silêncios dissonantes? como te falar. como. explicar-to. explicar-me. como.
primeiro apetece-me bufar-te. bufar-te. bufar-te que me empapa esse teu cristianismo. esse teu cristianismo feliz. sedimentado. sedimentado em milénios. sabes? encharcou. encharcou-se. impregnou-se devagarinho. devagarinho. sabes? apetece-me esfolá-lo. esfacelar a pele até que tudo minguasse numa sarjeta qualquer. ser-te sincero. ser-te sincero. e para isso preciso de o eliminar. eliminar. mas há esta infusão de racionalidade a que chamo. por agora. o impossível. talvez não só por agora mas por. para. durante. sempre. a impossível tarefa de esfarelar este nosso cristianismo da minha pele.
como escrevi: foram todos esses milénios de encrostação e ainda o meu nascimento. a infância. e o dia a dia ladeado de imposições. imposições semelhantes. semelhantes à educação que me ofereceste. a educação de arquitectar uma boa cofragem de personalidade. um molde apreendido ao longo de gerações. um molde certinho cujo desejo era regurgitar uma viga sem vícios. mas já percebeste. não é? sou um animal ácido de propriedade. ácido. e tenciono permanecer assim. assim. com várias vontades e uma fixação: esfolar. esfacelar. esfarelar. este cristianismo da minha pele.
e.e.
sábado, abril 09, 2005
inércia
orgasmo andar em contra-sentido. sentir as pessoas como alfinetes enfiando-se no meu peito e na minha cara. são 19:23. as membranas dilatam-se. entro no metro. orgasmo andar em contra-sentido. numa postura física oposta. uma contra-inércia. pensar na lei de velocidades de galileu e atravancá-la de pés e de massa orgânica negativa. caminhar no sentido do movimento da carruagem sabendo que isso me vai custar muito mais. sair do cordão umbilical que transporta toda a gente e deslocar-me numa escada rolante cujos degraus se atiram contra mim e trepá-la ferozmente e gritar vou subir esta treta toda em contra-sentido vou vou vou e subir tudo com as pernas a engrenarem-se e as canelas cortando-se nas lâminas metálicas dos frios degraus e subir subir subir até que os gémeos doam e não se possa mais de tanto esforço e trincar a língua. rebentar-lhe a pele. e correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr
rer rer rer rer rer rer rer rer
e.e.
orgasmo andar em contra-sentido. sentir as pessoas como alfinetes enfiando-se no meu peito e na minha cara. são 19:23. as membranas dilatam-se. entro no metro. orgasmo andar em contra-sentido. numa postura física oposta. uma contra-inércia. pensar na lei de velocidades de galileu e atravancá-la de pés e de massa orgânica negativa. caminhar no sentido do movimento da carruagem sabendo que isso me vai custar muito mais. sair do cordão umbilical que transporta toda a gente e deslocar-me numa escada rolante cujos degraus se atiram contra mim e trepá-la ferozmente e gritar vou subir esta treta toda em contra-sentido vou vou vou e subir tudo com as pernas a engrenarem-se e as canelas cortando-se nas lâminas metálicas dos frios degraus e subir subir subir até que os gémeos doam e não se possa mais de tanto esforço e trincar a língua. rebentar-lhe a pele. e correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr correr
rer rer rer rer rer rer rer rer
e.e.
quarta-feira, março 23, 2005
Especulações Críticas Sobre Cinco Momentos da Música do Século XX
por António Pinho Vargas
Partindo de uma temática particular em cada um dos cinco momentos estas especulações críticas levantam hipóteses novas ou mesmo heterodoxas sobre a música do século XX.
Face às narrativas artísticas e ideológicas auto-construídas procura-se levantar alguns véus e propôr visões alternativas em relação aos discursos habituais.
António Pinho Vargas
www.antoniopinhovargas.com
Schoenberg-Stravinsky-Adorno-Webern: uma constelação psicológica complexa.
Análise das múltiplas relações entre os três compositores e o filósofo da nova música.
Culturgest
www.culturgest.pt
Conferências . 30 de Março . 18h30. Pequeno Auditório
Entrada Gratuita
Levantamento de senha de acesso, 30 minutos antes do início da sessão,
no limite dos lugares disponíveis
por António Pinho Vargas
Partindo de uma temática particular em cada um dos cinco momentos estas especulações críticas levantam hipóteses novas ou mesmo heterodoxas sobre a música do século XX.
Face às narrativas artísticas e ideológicas auto-construídas procura-se levantar alguns véus e propôr visões alternativas em relação aos discursos habituais.
António Pinho Vargas
www.antoniopinhovargas.com
Schoenberg-Stravinsky-Adorno-Webern: uma constelação psicológica complexa.
Análise das múltiplas relações entre os três compositores e o filósofo da nova música.
Culturgest
www.culturgest.pt
Conferências . 30 de Março . 18h30. Pequeno Auditório
Entrada Gratuita
Levantamento de senha de acesso, 30 minutos antes do início da sessão,
no limite dos lugares disponíveis
terça-feira, março 22, 2005
Comunicação e Poesia
por Álvaro Seiça Neves [Junho 2004]
Como nomear a fabulosa árvore sem morte sobre a qual, pássaros sonâmbulos, acordamos perpetuamente em atraso e adormecemos apressadamente em avanço?
Eduardo Lourenço in Tempo e Poesia 1.
1. Introdução
É objectivo deste ensaio proporcionar uma análise entre comunicação e poesia nos dias que correm. Estabelecer, tanto quanto possível, uma aproximação ao tema da Comunicação na sociedade actual e, posteriormente, propor a palavra poética como veículo de Comunicação supremo.
2. Comunicação
Com o advento, na última década, de uma série de novos meios de comunicação artificiais, o meio social sofreu tremendas alterações. Nasceu uma nova era, consubstanciada em produtos de grande difusão – internet, telemóvel, e outros derivados electrónicos.
De facto, a revolução electrónica que muitos escritores anteviram há mais de quarenta anos, como William S. Borroughs, Aldous Huxley, George Orwell, entre outros, chegou, em parte. A erupção de uma rede espalhada por todo o mundo e em todo o lado – a internet – possibilitou um maior e mais rápido acesso a um infindável conjunto de serviços. Especializados ou não, estes serviços constituem muito do nosso quotidiano. Não só a web mas, também, outros tipo de redes cibernéticas e malhas ópticas, corromperam, em certa medida, a forma de mediação do ser humano com os objectos em volta e consigo mesmo. Proliferam os sistemas de Multibanco, a televisão por cabo e tantas significações de conteúdo expansivo. Certo será dizer que a quantidade de informação com que nos debatemos é, sem dúvida, angustiante. Isto porque o Homem se vê cada vez mais compelido a se fragmentar em tanta vertigem de apelos, visuais e intelectuais, e, paralelamente, benéficos ou não. A quantidade de informação e alta velocidade a que fomos sujeitos não significa, contudo, qualidade. E, surpreendentemente, ou talvez não, a quantidade desqualificou o nosso habitat. Informação e comunicação, crescendo exponencialmente, significam tão-só a diminuição de si próprias. A matéria com que nos debatemos é sensível. Porém, não podemos deixar de expressar a reflexão constante a que nos obriga este fenómeno.
Vivendo numa sociedade de informação, o Homem vê-se perante a inviabilidade de escolher. Ou melhor, a liberdade aparente com que se confronta é substituída pela concreta prisão em que se vê mergulhado. Sociedade de desinformação, diríamos. Todos os meios a que tem acesso estão, desde logo, direccionados para um pré-visionamento concebido. A liberdade concedida é controlada e previamente seleccionada por um Maestro que nos mostra aquilo que Ele quer mostrar. Passa-se isto na televisão, na programação proposta aos telespectadores, nos noticiários (quando a câmara x regista o momento y em vez do momento z),... . O alcance do noticiário em directo desvirtua o olhar humano, ou antes, torna virtual um mundo tido como real. Daí para a navegação num tempo concebido totalmente em fundamentos paralelos – virtuais – resulta que se apressa o passo e se descortina o espaço relativo em que parece existir a imensidão cibernética. Levanta-se, portanto, a questão dos limites – os limites e as fronteiras. Mas neste caso, não nos suscita o tema tanta preocupação. O que importa reter é o excepcional condicionamento em que estamos inseridos, apesar da euforia reinante.
Mas, se queremos tratar de comunicação, teremos que averiguar outras variáveis. Edward T. Hall, no ensaio A Dimensão Oculta, estabelece relação entre Cultura e Comunicação. O espaço social e pessoal e a percepção pelo homem destes dois elementos levou à formulação de um termo – proxémia. Define o autor: "neologismo que criei para designar o conjunto das observações e teorias referentes ao uso que o homem faz do espaço enquanto produto cultural específico."2. A comunicação, que surge como fundamento, justificação ou suporte da cultura e da própria vida, deriva numa força resultante de vários factores. O que é interessante retirar das suas análises, neste contexto, dado que a partir das investigações proxémicas chegou à conclusão que "indivíduos que pertencem a culturas diferentes, habitam mundos sensoriais diferentes"3, é o seguinte: "a própria percepção que o homem possui do meio circundante é programada pela língua que fala, exactamente como um computador."4. Deste postulado retiramos a noção de um homem preso ao seu organismo, preso ao seu aparelho vocal e dominando um espaço não visível que se afigura como uma limitação, a nível linguístico e a nível comunicativo. Discorramos sobre a nomeação das coisas, a linguagem e a auto-reflexividade latente, a interrogação necessária para questionar o estado inicial das coisas, e teremos a linha programática de Alberto Caeiro.
Estamos perante uma conjuntura que nos transporta para o imediato, para o controlo do indivíduo, para um sistema de comunicação, consequentemente, em ruína. O telemóvel iniciou, com maior frequência, uma deficiência que parecia oculta, ou menos explícita. O ser humano passou a falar, a falar em todo o lado, a toda a hora, para qualquer local, independentemente da distância e da margem geográfica. Inventara-se a telefonia. Sim, uma revolução indiscutível. Mas a portabilidade deste meio, a internet, as mensagens via e-mail, os chats e os fóruns de discussão, a "produção e transferência de mensagens"5 – no dizer de Gérard Leclerc – que se acelerou vertiginosamente, alterou de modo significativo a percepção da comunicação. O ser humano passou a falar, a falar incessantemente. Mas terá, porventura, passado a comunicar? Parece-nos que a resposta é soberanamente negativa. O ser humano encontra-se mais ausente, mais vazio, falando de tudo, mas sem nada para falar, acorrentado a um imaginário esgotado e empurrado para as grades da segregação social se assim não o fizer – se não falar, se não falar, se não falar interminavelmente... se não participar activamente no corrupio de nulidade total.
Assistimos a um crescente número de veículos com a finalidade de comunicação, quando, fruto do seu modus operandi, se revelam, eles mesmos, objectos de incomunicação.
Como é sabido, a incomunicação não é uma doença nem do final do séc. XX, nem de todo o séc. XX, nem de algum tempo ou lugar – é de sempre e de todo o lado. A realidade portuguesa não escapa entre as tenazes garras deste abismo incolor. Pactua, como todas as outras, onde a linguagem sonora ou silenciosa seja mediação. A Metamorfose, de Franz Kafka, símbolo desse vazio, dessa barreira entre os seres, sentido de universos distintos, demonstra fortemente a possibilidade desse constrangimento.
Passemos, pois, à relação entre Comunicação e Poesia.
3. Poesia
A palavra poética – sempre no limiar de si mesma – nos subtrai à dissolução, abrindo-nos de chofre as cem portas do Instante, nossa pátria ilimitada e natural.
Eduardo Lourenço in Tempo e Poesia 6.
Quando Franz Boas, Edward Sapir e Leonard Bloomfield estudaram as diferenças dos sistemas linguísticos – o indo-europeu, os índios da América e os esquimós –, perceberam a independência de cada sistema. Cada família linguística mostrava-se como um "sistema fechado com as suas próprias leis"7 – "O linguista devia, por conseguinte, evitar cuidadosamente projectar as regras implícitas da sua própria língua na língua estudada."8. Tentando efectuar um paralelismo com a Literatura e a sua Crítica, percebemos a pertinência da questão.
A Literatura tem o seu cânone estabelecido e remodelado ao longo dos anos. Quando algo não classificável aparece, a posição é, habitualmente, de exclusão ou integração moderada. O sistema literário constitui-se como um todo e não como uma frase gigante de sintagmas. O retalho, apesar de aliciante, não deveria ser apetecido. Não enquanto marginalização, enquanto rejeição pseudo-ponderada que elimine tudo o que não se ajuste ao anteriormente conhecido. O limite da Literatura é ela não ter limite. A fronteira, enquanto gaveta, proporciona o erro. É necessário, portanto, furar a Muralha de Tróia dos géneros e modos da Literatura e, mais especificamente, da poesia.
A Crítica, quando em presença de uma nova forma de arte – quer seja na música, nas artes plásticas, na dança ou na literatura –, deve evitar cair na tentação de projectar as regras das suas estruturas nas regras das estruturas estudadas. Queremos com isto explicitar o seguinte: o crítico deve, como o linguista, em certo sentido, quebrar as regras de estudo e análise anteriormente aplicadas para se lançar na criação de novas regras, procurando-as na estrutura do Texto desconhecido. Se a função do crítico, no âmbito da literatura, é tornar explícito aquilo que está implícito (segundo Harold Bloom), pressupõe-se que tente vislumbrar o implícito do novo texto em cada texto, procurando não recusar imediatamente mas sim compreender o processo do fazer.
Após esta digressão, convém centrarmo-nos no tema: Poesia. "Que linguagem pode servir à nomeação da realidade que somos senão aquela que por antonomásia já nos é devolvida como suprema Criação?" – pergunta Eduardo Lourenço. E a concentração da resposta concede-nos uma linha de acepção fulcral para o ensaio a que nos propomos – "É poeticamente que habitamos o mundo ou não o habitamos."9. A comunicação será uma apropriação do sentido da palavra, servida pela linguagem, e confrontada com a necessidade de uma distância de liberdade coerente. No âmago do estar, quer nos parecer sensato pensar num ambiente predominantemente poético, no espaço entreaberto da comunicação. "De um mundo submetido à divisão e à morte a palavra poética faz uma esfera que se reenvia de cada ponto o prodígio simultâneo das suas cintilações"10, acrescentamos, parafraseando Lourenço. Reforçamos a intenção de ver na palavra poética o acto etéreo de comunicação, de alheamento e expansão sensorial – "Só a palavra poética é libertação do mundo."11.
Confronte-se o primeiro capítulo – onde referenciámos as diferentes tipologias de vazio contemporâneo, decorrentes dos meios tecnológicos e da fabricação individual de uma consciência de massas – com o seu motivo expresso de compreender o fenómeno de incomunicação existente e com a expressão de Lourenço – "mastigação discursiva do mundo"12 – e combinaremos a súmula dos nossos propósitos. Confronte-se ainda: "O discurso do mundo não se encontra apenas corrigido ou voltado ao avesso. Encontra-se suspenso e ao mesmo tempo em estado de suprema aceleração."13. Inquietante, já que nos assimila de forma devoradora e acelerada.
O aprisionamento ao sistema comunicativo tornado homogéneo dispara em direcção a cada indivíduo – "Na mais idealista das filosofias nós continuamos ainda prisioneiros do mundo. E tanto mais prisioneiros quanto maior é a convicção de estarmos libertos."14, refere Lourenço.
Tencionámos, ao aproximar o carácter da Poesia do da Comunicação, reagir contra este influxo de nevralgia adormecida em que vive a sociedade. Neste momento frágil de glaciação ardente, o intuito não é definir a Poesia contemporânea, é sim estabelecer a ponte desejável entre a Poesia e a comunicação que deve desempenhar, como aproximação de uma solução possível. Segundo Lourenço, "(...) a poesia suscita em todos os homens, nem que seja uma só vez na vida, um começo de metamorfose semelhante à do autêntico amor (...)"15. É esta metamorfose, o acordar de uma apatia instalada, que nos empolga. Defendemos a Poesia como comunicação, a Poesia como escadaria da compreensão humana. Defendemos, não de modo romântico mas sim comunicativo, a Poesia como voz aguda da (in)consciente elevação do ser. Pretende-se a acção, a ebulição face ao crepitar do conhecimento. Assim, "De inofensiva, a poesia converte-se na mais suspeita das manifestações humanas, na mais perigosa de todas as criações."16.
Anexos
1. Notas
1 – Eduardo Lourenço in Tempo e Poesia, p.34.
2 – Edward T. Hall in A Dimensão Oculta, p.11.
3 – Ibidem, p.13.
4 – Ib., p.12.
5 – Gérard Leclerc in A Sociedade da Comunicação: Uma Abordagem Sociológica e Crítica, p.10.
6 – Eduardo Lourenço, op. cit., p.36.
7 – Edward T. Hall, op. cit., p.11.
8 – Idem, idem.
9 – Eduardo Lourenço, op. cit., p.35.
10 – Ibidem, p.36.
11 – Ib., p.38.
12 – Idem, idem.
13 – Id., id..
14 – Id., id..
15 – Id., p. 40.
16 – Id., id..
2. Bibliografia
2.1. Activa
HALL, Edward T. – A Dimensão Oculta, Relógio D’ Água, Lisboa, 1986.
LECLERC, Gérard – A Sociedade da Comunicação: Uma Abordagem Sociológica e Crítica, Instituto Piaget, Lisboa, 2000.
LOURENÇO, Eduardo – Tempo e Poesia, Gradiva, Lisboa, 2003.
SÁÀGUA, João – Lógica, Linguagem e Comunicação, Colibri, 2002.
2.2. Carácter Geral
RUBIM, Gustavo – Arte de Sublinhar, Angelus Novus, Coimbra, 2003.
por Álvaro Seiça Neves [Junho 2004]
Como nomear a fabulosa árvore sem morte sobre a qual, pássaros sonâmbulos, acordamos perpetuamente em atraso e adormecemos apressadamente em avanço?
Eduardo Lourenço in Tempo e Poesia 1.
1. Introdução
É objectivo deste ensaio proporcionar uma análise entre comunicação e poesia nos dias que correm. Estabelecer, tanto quanto possível, uma aproximação ao tema da Comunicação na sociedade actual e, posteriormente, propor a palavra poética como veículo de Comunicação supremo.
2. Comunicação
Com o advento, na última década, de uma série de novos meios de comunicação artificiais, o meio social sofreu tremendas alterações. Nasceu uma nova era, consubstanciada em produtos de grande difusão – internet, telemóvel, e outros derivados electrónicos.
De facto, a revolução electrónica que muitos escritores anteviram há mais de quarenta anos, como William S. Borroughs, Aldous Huxley, George Orwell, entre outros, chegou, em parte. A erupção de uma rede espalhada por todo o mundo e em todo o lado – a internet – possibilitou um maior e mais rápido acesso a um infindável conjunto de serviços. Especializados ou não, estes serviços constituem muito do nosso quotidiano. Não só a web mas, também, outros tipo de redes cibernéticas e malhas ópticas, corromperam, em certa medida, a forma de mediação do ser humano com os objectos em volta e consigo mesmo. Proliferam os sistemas de Multibanco, a televisão por cabo e tantas significações de conteúdo expansivo. Certo será dizer que a quantidade de informação com que nos debatemos é, sem dúvida, angustiante. Isto porque o Homem se vê cada vez mais compelido a se fragmentar em tanta vertigem de apelos, visuais e intelectuais, e, paralelamente, benéficos ou não. A quantidade de informação e alta velocidade a que fomos sujeitos não significa, contudo, qualidade. E, surpreendentemente, ou talvez não, a quantidade desqualificou o nosso habitat. Informação e comunicação, crescendo exponencialmente, significam tão-só a diminuição de si próprias. A matéria com que nos debatemos é sensível. Porém, não podemos deixar de expressar a reflexão constante a que nos obriga este fenómeno.
Vivendo numa sociedade de informação, o Homem vê-se perante a inviabilidade de escolher. Ou melhor, a liberdade aparente com que se confronta é substituída pela concreta prisão em que se vê mergulhado. Sociedade de desinformação, diríamos. Todos os meios a que tem acesso estão, desde logo, direccionados para um pré-visionamento concebido. A liberdade concedida é controlada e previamente seleccionada por um Maestro que nos mostra aquilo que Ele quer mostrar. Passa-se isto na televisão, na programação proposta aos telespectadores, nos noticiários (quando a câmara x regista o momento y em vez do momento z),... . O alcance do noticiário em directo desvirtua o olhar humano, ou antes, torna virtual um mundo tido como real. Daí para a navegação num tempo concebido totalmente em fundamentos paralelos – virtuais – resulta que se apressa o passo e se descortina o espaço relativo em que parece existir a imensidão cibernética. Levanta-se, portanto, a questão dos limites – os limites e as fronteiras. Mas neste caso, não nos suscita o tema tanta preocupação. O que importa reter é o excepcional condicionamento em que estamos inseridos, apesar da euforia reinante.
Mas, se queremos tratar de comunicação, teremos que averiguar outras variáveis. Edward T. Hall, no ensaio A Dimensão Oculta, estabelece relação entre Cultura e Comunicação. O espaço social e pessoal e a percepção pelo homem destes dois elementos levou à formulação de um termo – proxémia. Define o autor: "neologismo que criei para designar o conjunto das observações e teorias referentes ao uso que o homem faz do espaço enquanto produto cultural específico."2. A comunicação, que surge como fundamento, justificação ou suporte da cultura e da própria vida, deriva numa força resultante de vários factores. O que é interessante retirar das suas análises, neste contexto, dado que a partir das investigações proxémicas chegou à conclusão que "indivíduos que pertencem a culturas diferentes, habitam mundos sensoriais diferentes"3, é o seguinte: "a própria percepção que o homem possui do meio circundante é programada pela língua que fala, exactamente como um computador."4. Deste postulado retiramos a noção de um homem preso ao seu organismo, preso ao seu aparelho vocal e dominando um espaço não visível que se afigura como uma limitação, a nível linguístico e a nível comunicativo. Discorramos sobre a nomeação das coisas, a linguagem e a auto-reflexividade latente, a interrogação necessária para questionar o estado inicial das coisas, e teremos a linha programática de Alberto Caeiro.
Estamos perante uma conjuntura que nos transporta para o imediato, para o controlo do indivíduo, para um sistema de comunicação, consequentemente, em ruína. O telemóvel iniciou, com maior frequência, uma deficiência que parecia oculta, ou menos explícita. O ser humano passou a falar, a falar em todo o lado, a toda a hora, para qualquer local, independentemente da distância e da margem geográfica. Inventara-se a telefonia. Sim, uma revolução indiscutível. Mas a portabilidade deste meio, a internet, as mensagens via e-mail, os chats e os fóruns de discussão, a "produção e transferência de mensagens"5 – no dizer de Gérard Leclerc – que se acelerou vertiginosamente, alterou de modo significativo a percepção da comunicação. O ser humano passou a falar, a falar incessantemente. Mas terá, porventura, passado a comunicar? Parece-nos que a resposta é soberanamente negativa. O ser humano encontra-se mais ausente, mais vazio, falando de tudo, mas sem nada para falar, acorrentado a um imaginário esgotado e empurrado para as grades da segregação social se assim não o fizer – se não falar, se não falar, se não falar interminavelmente... se não participar activamente no corrupio de nulidade total.
Assistimos a um crescente número de veículos com a finalidade de comunicação, quando, fruto do seu modus operandi, se revelam, eles mesmos, objectos de incomunicação.
Como é sabido, a incomunicação não é uma doença nem do final do séc. XX, nem de todo o séc. XX, nem de algum tempo ou lugar – é de sempre e de todo o lado. A realidade portuguesa não escapa entre as tenazes garras deste abismo incolor. Pactua, como todas as outras, onde a linguagem sonora ou silenciosa seja mediação. A Metamorfose, de Franz Kafka, símbolo desse vazio, dessa barreira entre os seres, sentido de universos distintos, demonstra fortemente a possibilidade desse constrangimento.
Passemos, pois, à relação entre Comunicação e Poesia.
3. Poesia
A palavra poética – sempre no limiar de si mesma – nos subtrai à dissolução, abrindo-nos de chofre as cem portas do Instante, nossa pátria ilimitada e natural.
Eduardo Lourenço in Tempo e Poesia 6.
Quando Franz Boas, Edward Sapir e Leonard Bloomfield estudaram as diferenças dos sistemas linguísticos – o indo-europeu, os índios da América e os esquimós –, perceberam a independência de cada sistema. Cada família linguística mostrava-se como um "sistema fechado com as suas próprias leis"7 – "O linguista devia, por conseguinte, evitar cuidadosamente projectar as regras implícitas da sua própria língua na língua estudada."8. Tentando efectuar um paralelismo com a Literatura e a sua Crítica, percebemos a pertinência da questão.
A Literatura tem o seu cânone estabelecido e remodelado ao longo dos anos. Quando algo não classificável aparece, a posição é, habitualmente, de exclusão ou integração moderada. O sistema literário constitui-se como um todo e não como uma frase gigante de sintagmas. O retalho, apesar de aliciante, não deveria ser apetecido. Não enquanto marginalização, enquanto rejeição pseudo-ponderada que elimine tudo o que não se ajuste ao anteriormente conhecido. O limite da Literatura é ela não ter limite. A fronteira, enquanto gaveta, proporciona o erro. É necessário, portanto, furar a Muralha de Tróia dos géneros e modos da Literatura e, mais especificamente, da poesia.
A Crítica, quando em presença de uma nova forma de arte – quer seja na música, nas artes plásticas, na dança ou na literatura –, deve evitar cair na tentação de projectar as regras das suas estruturas nas regras das estruturas estudadas. Queremos com isto explicitar o seguinte: o crítico deve, como o linguista, em certo sentido, quebrar as regras de estudo e análise anteriormente aplicadas para se lançar na criação de novas regras, procurando-as na estrutura do Texto desconhecido. Se a função do crítico, no âmbito da literatura, é tornar explícito aquilo que está implícito (segundo Harold Bloom), pressupõe-se que tente vislumbrar o implícito do novo texto em cada texto, procurando não recusar imediatamente mas sim compreender o processo do fazer.
Após esta digressão, convém centrarmo-nos no tema: Poesia. "Que linguagem pode servir à nomeação da realidade que somos senão aquela que por antonomásia já nos é devolvida como suprema Criação?" – pergunta Eduardo Lourenço. E a concentração da resposta concede-nos uma linha de acepção fulcral para o ensaio a que nos propomos – "É poeticamente que habitamos o mundo ou não o habitamos."9. A comunicação será uma apropriação do sentido da palavra, servida pela linguagem, e confrontada com a necessidade de uma distância de liberdade coerente. No âmago do estar, quer nos parecer sensato pensar num ambiente predominantemente poético, no espaço entreaberto da comunicação. "De um mundo submetido à divisão e à morte a palavra poética faz uma esfera que se reenvia de cada ponto o prodígio simultâneo das suas cintilações"10, acrescentamos, parafraseando Lourenço. Reforçamos a intenção de ver na palavra poética o acto etéreo de comunicação, de alheamento e expansão sensorial – "Só a palavra poética é libertação do mundo."11.
Confronte-se o primeiro capítulo – onde referenciámos as diferentes tipologias de vazio contemporâneo, decorrentes dos meios tecnológicos e da fabricação individual de uma consciência de massas – com o seu motivo expresso de compreender o fenómeno de incomunicação existente e com a expressão de Lourenço – "mastigação discursiva do mundo"12 – e combinaremos a súmula dos nossos propósitos. Confronte-se ainda: "O discurso do mundo não se encontra apenas corrigido ou voltado ao avesso. Encontra-se suspenso e ao mesmo tempo em estado de suprema aceleração."13. Inquietante, já que nos assimila de forma devoradora e acelerada.
O aprisionamento ao sistema comunicativo tornado homogéneo dispara em direcção a cada indivíduo – "Na mais idealista das filosofias nós continuamos ainda prisioneiros do mundo. E tanto mais prisioneiros quanto maior é a convicção de estarmos libertos."14, refere Lourenço.
Tencionámos, ao aproximar o carácter da Poesia do da Comunicação, reagir contra este influxo de nevralgia adormecida em que vive a sociedade. Neste momento frágil de glaciação ardente, o intuito não é definir a Poesia contemporânea, é sim estabelecer a ponte desejável entre a Poesia e a comunicação que deve desempenhar, como aproximação de uma solução possível. Segundo Lourenço, "(...) a poesia suscita em todos os homens, nem que seja uma só vez na vida, um começo de metamorfose semelhante à do autêntico amor (...)"15. É esta metamorfose, o acordar de uma apatia instalada, que nos empolga. Defendemos a Poesia como comunicação, a Poesia como escadaria da compreensão humana. Defendemos, não de modo romântico mas sim comunicativo, a Poesia como voz aguda da (in)consciente elevação do ser. Pretende-se a acção, a ebulição face ao crepitar do conhecimento. Assim, "De inofensiva, a poesia converte-se na mais suspeita das manifestações humanas, na mais perigosa de todas as criações."16.
Anexos
1. Notas
1 – Eduardo Lourenço in Tempo e Poesia, p.34.
2 – Edward T. Hall in A Dimensão Oculta, p.11.
3 – Ibidem, p.13.
4 – Ib., p.12.
5 – Gérard Leclerc in A Sociedade da Comunicação: Uma Abordagem Sociológica e Crítica, p.10.
6 – Eduardo Lourenço, op. cit., p.36.
7 – Edward T. Hall, op. cit., p.11.
8 – Idem, idem.
9 – Eduardo Lourenço, op. cit., p.35.
10 – Ibidem, p.36.
11 – Ib., p.38.
12 – Idem, idem.
13 – Id., id..
14 – Id., id..
15 – Id., p. 40.
16 – Id., id..
2. Bibliografia
2.1. Activa
HALL, Edward T. – A Dimensão Oculta, Relógio D’ Água, Lisboa, 1986.
LECLERC, Gérard – A Sociedade da Comunicação: Uma Abordagem Sociológica e Crítica, Instituto Piaget, Lisboa, 2000.
LOURENÇO, Eduardo – Tempo e Poesia, Gradiva, Lisboa, 2003.
SÁÀGUA, João – Lógica, Linguagem e Comunicação, Colibri, 2002.
2.2. Carácter Geral
RUBIM, Gustavo – Arte de Sublinhar, Angelus Novus, Coimbra, 2003.
segunda-feira, março 21, 2005
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