terça-feira, novembro 16, 2004

schiele. auto-retrato.

tomei café com um desenho do egon schiele. ganhara contudo volume. densidade. schiele sobrevive. continua cá.
entre nós.
e as fechaduras que deixou por abrir. as portas entreabertas para as quais nos incitou a descobrir e a refazer. permanecem. solidificou-se uma réstia de transposição. e ficamos mais vidrados. com as mandíbulas bem tesas e apertadas. é casual. mas aconteceu. aqui. nesta esplanada. uma passagem para uma tri. dimensionalidade. assomada nesta personagem em código.
são as orelhas a pontiagar no topo. é fantástico tomar café com um desenho do egon schiele. são as enseadas de pele que rasgam a floresta capilar. é a altura média da testa. o seu desenho a antracite. o branco iluminando este rosto contorcido. amarelado. encarnado. com a saliência das esferas oculares. dois globos a querer explodir. e meio olho de cada lado a desprender-se das pálpebras elásticas. cortadas em traço. formando-se um ciclope. ciclope que representa outra parte da fresta entreaberta da porta. depois é este nariz sinuosamente recto que parece não acabar. são as sobrancelhas frisadas em arco e as rugas trepando até à calvície. os ossos salientes e rijos.
auto-retrato
e como é inquietante continuar a desconhecer o desenho. egon schiele. e a pessoa que está à minha frente tomando um café que parece não acabar.

e.e.

sexta-feira, novembro 12, 2004

as duas moças comentavam:
um engenheiro polido é melhor que um arquitecto
interrompi:
as senhoras obliteram que um arquitecto
é um matemático puro
enquanto que um engenheiro
subtraindo boas excepções
é um mero contabilista?
as moças desorientadas cacarejaram

aseiçaneves

quarta-feira, novembro 10, 2004

(...)
Assim como as alamedas que se estendiam a perder de vista e cujos largos raios submetiam os horizontes, pareciam não ter sido traçados para servirem ao lento acesso das carruagens, mas que o arquitecto, mercê de alguma obscura e genial presciência, as havia destinado, com trezentos anos de antecedência, aos veículos modernos. O certo é que não há motivo para os homens se esforçarem por fazer algo de duradoiro se não pressentirem confusamente que a sua obra deverá esperar por um acréscimo de beleza, que eles de momento são incapazes de lhe conferir, mas que o futuro lhes reservará. Não se faz grande, espera-se que engrandeça.
(...)

in O Supermacho, Alfred Jarry, Edições Afrodite, Lisboa, 1975, p.32.
O original francês, Surmâle, data de 1902.

terça-feira, novembro 09, 2004

Sobre um Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Herberto Helder



A Contradição

No lugar de um “sim” deveria estar um “não”.
Assim termina a jornada que nunca chegou a ser iniciada.

Estava eu sorridente, feliz por estar onde estava com quem não estava, e a repetir de forma incessante e algo contrariada as palavras que ouvira dizer essa amanhã:

“Tudo o que te disserem é mentira.”

Como poderia ele, com tanta segurança, afirmar que de outra forma não o era? Onde vai ele buscar essa crença imbatível que lhe permite atravessar de olhos fechados a instável ponte que une o dizer ao saber?
Suponhamos que, de facto, tudo o que me disserem é mentira. Todas as afirmações que ouço diariamente, desde “Estou atrasado…” até “Amanhã vou a Xangai” estão totalmente corrompidas pela falsidade; como tal, significam exactamente o oposto da ideia que aparentam transmitir. Nesse caso, até aquilo que ele mesmo afirma estaria encerrado em falsidade e negação. Logo, nem tudo aquilo que me disserem é mentira. Tem de haver pelo menos uma afirmação verdadeira. Mas… qual?
A resposta aponta-nos irremediavelmente para a sua própria declaração, que defende que tudo aquilo que me disserem é falso. Ao assumir-se como mentirosa, a afirmação consegue suportar-se como verdadeira, por não entrar em contradição com aquilo que sustém. Incrível! Ao ceder toda a sua credibilidade, ela torna-se verdadeira e correcta!
Tudo o que me disserem é de facto mentira, porque alguém me mente dizendo-me a verdade, alguém que é sincero quando me prova que não o é…
Perante isto, como poderia eu duvidar dele?

Cristóvão Figueiredo



Vivam Apenas

Vivam, apenas
Sejam bons como o sol.
Livres como o vento.
Naturais como as fontes

Imitem as árvores dos caminhos
que dão flores e frutos
sem complicações.

Mas não queiram convencer os cardos
a transformar os espinhos
em rosas e canções.

E principalmente não pensem na Morte.
Não sofram por causa dos cadáveres
que só são belos
quando se desenham na terra em flores.

Vivam, apenas.
A Morte é para os mortos!

José Gomes Ferreira

domingo, novembro 07, 2004

Onda Poética

A Sessão n.º 80 (OITENTA!) da ONDA POÉTICA realizar-se-á no próximo dia 8 de Novembro, Segunda-Feira próxima, no Bar Dominó do Casino de Espinho, pelas 21.30 horas.
A primeira parte será preenchida com a leitura por vários residentes e convidados de uma colagem, da responsabilidade de Anthero Monteiro, de textos dos seguintes autores: Vinicius de Moraes, Ruy Belo, Joaquim Namorado, Álvaro Feijó, Manuel Alegre, Mário Dionísio, Sidónio Muralha, António Aleixo e José Afonso, todos subordinados ao tema “CONSTRUÇÃO”.

Os interlúdios musicais estarão a cargo de Carlos Andrade (voz e guitarra acústica).
A segunda parte destinar-se-á à intervenção dos ESPONTÂNEOS, sob tema livre.

Saudações culturais e poéticas do
Coordenador da ONDA POÉTICA

Anthero Monteiro

quarta-feira, novembro 03, 2004

asno

se por entre o teu pulmão
de vestígios vedados
não se vislumbrasse a pleura de asno
que tentas ocultar
aí sim

se por entre as tripas verdadeiras
que afirmas desfazer
não se vincasse um cólon
de excrementos falsos
aí sim

sorririas melhor
chorarias melhor
amarias melhor

e contigo todos


aseiçaneves

sexta-feira, outubro 29, 2004

eclipse

estava a certeza irradiando uma luz feroz de branca
quando
cega e de rompante
se tapou
num eclipse de chumbo
ofuscado
pela estranheza da novidade


aseiçaneves

quarta-feira, outubro 20, 2004

EXORTAÇÃO

Se te apetece ir por um lado, vai, indiferente
a tôdas as ameaças e a todos os protestos,
mas se te não deixam ir e querem que vás por outro,
cruza os braços e deixa-te estar,
inerte como uma montanha,
até tudo à tua volta cair aos pedaços
e tu e o mundo serem só horizonte.

in Voz Arremessada ao Caminho, Armindo Rodrigues, Lisboa, 1943.