primeiro vieram os fenícios. focinharam uma igreja. depois vieram os mouros. continuaram os ainda não portugueses. guerra. a igreja desabou em parte. nova construção. sobejaram pedaços de fenícios e mouros. houve gótico. houve o mestre de obras do Mosteiro dos Jerónimos a acrescentar os seus rendilhados de calcário. renascimento. mais tarde reconstrução. houve fenícios. houve mouros. ante portugueses. houve a maldita História. e aqui este facho a iluminá-la. houve fenícios. houve mouros. e este facho ávido de gasolina vítrea para destruir tanto palavreado de pedra.
e.e.
quarta-feira, setembro 22, 2004
Implosão
as cabeças de trigo
entrelaçadas num novelo de silêncio
ventoso
um silêncio cheio de vontade
que o agitem que o animem
que o reanimem com soro dinamicamente estático
os alfinetes de cevada
focados no nevoeiro de neve manchada
um nevoeiro sedento de sonho
que seduz que transporta
que propaga o ataque cardíaco
em segundos
as cabeças de trigo
os alfinetes de cevada
e uma grande ferradura
de papa espessa
que atravessa a garganta
e a aperta e sufoca
como um edifício titânico
implodindo
(serenamente)
convulso
Álvaro Seiça Neves
(a partir de Paisagens do Silêncio, Renato Roque e Jorge Sousa Braga, 2004.)
as cabeças de trigo
entrelaçadas num novelo de silêncio
ventoso
um silêncio cheio de vontade
que o agitem que o animem
que o reanimem com soro dinamicamente estático
os alfinetes de cevada
focados no nevoeiro de neve manchada
um nevoeiro sedento de sonho
que seduz que transporta
que propaga o ataque cardíaco
em segundos
as cabeças de trigo
os alfinetes de cevada
e uma grande ferradura
de papa espessa
que atravessa a garganta
e a aperta e sufoca
como um edifício titânico
implodindo
(serenamente)
convulso
Álvaro Seiça Neves
(a partir de Paisagens do Silêncio, Renato Roque e Jorge Sousa Braga, 2004.)
domingo, setembro 19, 2004
FOME
UM DIA SENTEI-VOS DENTRO DE MIM
E DISSE: - TENHO FOME!
- TENHO FOME!
E DENTRO DA MINHA FOME ENCONTREI O AMOR:
O AMOR QUE, NÃO SEI PORQUÊ, TENHO REJEITADO
EM CADA UM DOS MEUS DIAS...
SINTO-ME INVADIDO POR UMA PROFUNDA DÍVIDA:
QUERO DAR!
TENHO UMA PROFUNDA NECESSIDADE DE DAR!
SINTO-ME SÓ:
NA LUZ QUE NÃO TRAGO,
NAS MÃOS QUE NADA POSSUEM,
DOS CORAÇÕES EM QUE NÃO ENTRO...
QUERO DAR:
PARA TODOS QUERO SER A SALVAÇÃO QUE NÃO SOU PARA MIM.
POSSO SER JÁ E AQUI: OU POSSO CONTINUAR A SER ESTE ANO!
UM NOIVADO, UM FUNERAL...
NÃO IMPORTA!
SÓ IMPORTA ESTA NECESSIDADE DE ME PARTILHAR!
SOU QUASE O MENDIGO CUJA MÃO FICOU, SÓ A MÃO FICOU...
TENHO FOME!
TENHO FOME DE ESPALHAR ESTA FOME!
ACREDITO ASSIM INAUGURAR-ME...
- MAS EU JÁ TENHO TUDO. DISSESTE.
MAS NÃO ERA ISSO...
EXPLIQUEI-TE ENTÃO A MINHA FOME.
EU QUERO DAR!
NÃO IMPORTA O QUÊ.
NÃO IMPORTA A QUEM.
SENTASTE-TE ENTÃO AO MEU LADO...
E TIVESTE FOME COMIGO.
in 27, Fotonovelas Poéticas, Ex-Ricardo dePinho Teixeira, Corpos Editora, 2004.
UM DIA SENTEI-VOS DENTRO DE MIM
E DISSE: - TENHO FOME!
- TENHO FOME!
E DENTRO DA MINHA FOME ENCONTREI O AMOR:
O AMOR QUE, NÃO SEI PORQUÊ, TENHO REJEITADO
EM CADA UM DOS MEUS DIAS...
SINTO-ME INVADIDO POR UMA PROFUNDA DÍVIDA:
QUERO DAR!
TENHO UMA PROFUNDA NECESSIDADE DE DAR!
SINTO-ME SÓ:
NA LUZ QUE NÃO TRAGO,
NAS MÃOS QUE NADA POSSUEM,
DOS CORAÇÕES EM QUE NÃO ENTRO...
QUERO DAR:
PARA TODOS QUERO SER A SALVAÇÃO QUE NÃO SOU PARA MIM.
POSSO SER JÁ E AQUI: OU POSSO CONTINUAR A SER ESTE ANO!
UM NOIVADO, UM FUNERAL...
NÃO IMPORTA!
SÓ IMPORTA ESTA NECESSIDADE DE ME PARTILHAR!
SOU QUASE O MENDIGO CUJA MÃO FICOU, SÓ A MÃO FICOU...
TENHO FOME!
TENHO FOME DE ESPALHAR ESTA FOME!
ACREDITO ASSIM INAUGURAR-ME...
- MAS EU JÁ TENHO TUDO. DISSESTE.
MAS NÃO ERA ISSO...
EXPLIQUEI-TE ENTÃO A MINHA FOME.
EU QUERO DAR!
NÃO IMPORTA O QUÊ.
NÃO IMPORTA A QUEM.
SENTASTE-TE ENTÃO AO MEU LADO...
E TIVESTE FOME COMIGO.
in 27, Fotonovelas Poéticas, Ex-Ricardo dePinho Teixeira, Corpos Editora, 2004.
quinta-feira, setembro 16, 2004
sete dedos de mão
pensei em degolar sete dedos de mão. quatro da esquerda. três da direita. aleatoriamente. sete dedos de mão. tinha essa folha branca espaçosa debaixo dos olhos. ainda bem. não estaria agora aqui. não nestas letras. letras que enchiam os olhos na altura. não estaria agora aqui. estaria antes. estaria antes. estaria antes com os olhos degolados. sem letras. sem presente. só recordação de sete dedos de mão. sete letras vivas. muitas letras agora. amo-te mão. amo-te olhos. percebi que tudo não deixa de ser instante. tudo que julgamos presente e num segundo se desfaz. amo-te palavras. amo-te dedos.
e.e.
pensei em degolar sete dedos de mão. quatro da esquerda. três da direita. aleatoriamente. sete dedos de mão. tinha essa folha branca espaçosa debaixo dos olhos. ainda bem. não estaria agora aqui. não nestas letras. letras que enchiam os olhos na altura. não estaria agora aqui. estaria antes. estaria antes. estaria antes com os olhos degolados. sem letras. sem presente. só recordação de sete dedos de mão. sete letras vivas. muitas letras agora. amo-te mão. amo-te olhos. percebi que tudo não deixa de ser instante. tudo que julgamos presente e num segundo se desfaz. amo-te palavras. amo-te dedos.
e.e.
terça-feira, setembro 07, 2004
O sangue bombardeou-me a cabeça. Senti uma massa pesada, hoje. Foi quando espreitei para debaixo da cama, de tronco abandonado. Olhei e o fundo pareceu-me um grande e leve céu estrelado, tantas eram as penas que ali repousavam.
No limiar perscrutei, talvez, o sonho distante que todas as noites me vigia, escondendo-se, disforme, na sepultura do meu corpo.
e.e.
No limiar perscrutei, talvez, o sonho distante que todas as noites me vigia, escondendo-se, disforme, na sepultura do meu corpo.
e.e.
quarta-feira, julho 28, 2004
Amoródio
Coimbra não me deixou saudades. Mas tenho de admitir que é uma cidade muito intrigante. Parece ter o dom de absorver aqueles que lá entram, manipulando-lhes a mente e obrigando-os a seguir as suas regras, a gostar de si. Os que se recusam a obedecer-lhe são postos de parte. Este extremismo só pode ser devido aos que a sustentam a cidade que encerra D. Afonso Henriques, com uma devoção febril que roça o fanatismo.
Ao entrar em Coimbra é impossível deixar de sentir a aura que a rodeia, delimitando a fronteira entre ela e o mundo. Em criança, lembro-me de penetrar neste local, deixando-me uma sensação ambígua de simultâneo mal-estar e segurança. Veja-se que as minhas idas a Coimbra enquanto criança estavam sempre associadas a entradas de urgência no Hospital Pediátrico, pelo que talvez este sentimento faça sentido anamneticamente falando. Afinal, eu sempre entrei em Coimbra em sofrimento e saí de lá novamente confortável comigo mesmo.
E isso sempre me acompanhou. Só assim se pode compreender o sentimento opressivo e desconfortável que senti ao chegar a Coimbra para o meu primeiro dia de Faculdade e da minha felicidade ao voltar para Leiria. A minha relação de amoródio com a cidade que vive de estudantes começou muito antes de eu me aperceber disso.
Aliás, reflectindo no que disse atrás, não creio que ao regressar a Leiria eu estivesse feliz por voltar ao lar. Eu estava era aliviado por sair de Coimbra. Torna-se agora óbvio, perante todos os sentimentos contraditórios que surgiram durante a minha estadia em Coimbra, que eu nunca poderia sentir-me bem naquele local, rodeado daquela gente. Estava condenado a entrar em conflito comigo mesmo, numa disputa algo esquizofrénica entre a minha repulsa atractiva e a minha atracção repulsiva por esta entidade.
Nunca duvidei, desde que lá entrei pela primeira vez, que o meu lugar não era ali. Sempre o soube, apesar de tentar convencer-me a mim mesmo do contrário. Cada vez que me vergava perante o seu poder, tentando submeter-me às suas regras e caprichos, a cidade ria-se do meu esforço patético de integração. Não tinha qualquer problema em espancar-me de forma humilhante, deixando-me debilitado e incapaz de raciocinar, imaginar, viver. Tempos estranhos, aqueles…
Agora, torna-se um pouco mais fácil passar em Coimbra. Mas não sei se alguma vez conseguirei exorcizar as marcas das feridas que essa prostituta requintada pseudo-intelectual provocou no meu eu. Muito provavelmente, não. Afinal, tu és o meu amoródio. E tens mais encanto na hora da despedida.
Ramona
Coimbra não me deixou saudades. Mas tenho de admitir que é uma cidade muito intrigante. Parece ter o dom de absorver aqueles que lá entram, manipulando-lhes a mente e obrigando-os a seguir as suas regras, a gostar de si. Os que se recusam a obedecer-lhe são postos de parte. Este extremismo só pode ser devido aos que a sustentam a cidade que encerra D. Afonso Henriques, com uma devoção febril que roça o fanatismo.
Ao entrar em Coimbra é impossível deixar de sentir a aura que a rodeia, delimitando a fronteira entre ela e o mundo. Em criança, lembro-me de penetrar neste local, deixando-me uma sensação ambígua de simultâneo mal-estar e segurança. Veja-se que as minhas idas a Coimbra enquanto criança estavam sempre associadas a entradas de urgência no Hospital Pediátrico, pelo que talvez este sentimento faça sentido anamneticamente falando. Afinal, eu sempre entrei em Coimbra em sofrimento e saí de lá novamente confortável comigo mesmo.
E isso sempre me acompanhou. Só assim se pode compreender o sentimento opressivo e desconfortável que senti ao chegar a Coimbra para o meu primeiro dia de Faculdade e da minha felicidade ao voltar para Leiria. A minha relação de amoródio com a cidade que vive de estudantes começou muito antes de eu me aperceber disso.
Aliás, reflectindo no que disse atrás, não creio que ao regressar a Leiria eu estivesse feliz por voltar ao lar. Eu estava era aliviado por sair de Coimbra. Torna-se agora óbvio, perante todos os sentimentos contraditórios que surgiram durante a minha estadia em Coimbra, que eu nunca poderia sentir-me bem naquele local, rodeado daquela gente. Estava condenado a entrar em conflito comigo mesmo, numa disputa algo esquizofrénica entre a minha repulsa atractiva e a minha atracção repulsiva por esta entidade.
Nunca duvidei, desde que lá entrei pela primeira vez, que o meu lugar não era ali. Sempre o soube, apesar de tentar convencer-me a mim mesmo do contrário. Cada vez que me vergava perante o seu poder, tentando submeter-me às suas regras e caprichos, a cidade ria-se do meu esforço patético de integração. Não tinha qualquer problema em espancar-me de forma humilhante, deixando-me debilitado e incapaz de raciocinar, imaginar, viver. Tempos estranhos, aqueles…
Agora, torna-se um pouco mais fácil passar em Coimbra. Mas não sei se alguma vez conseguirei exorcizar as marcas das feridas que essa prostituta requintada pseudo-intelectual provocou no meu eu. Muito provavelmente, não. Afinal, tu és o meu amoródio. E tens mais encanto na hora da despedida.
Ramona
quinta-feira, julho 15, 2004
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