segunda-feira, outubro 03, 2005

12



há uma telha quebrada
em cada telhado
encontrada a telha
é por lá que se descobre
a careca funda
obstáculo igual
na escadaria-vertigem




Álvaro Seiça Neves

quarta-feira, setembro 28, 2005

TEORIA DAS CORES

Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.
O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor - sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a ínsidia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.
Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.

in Os Passos em Volta, Herberto Helder, Assírio e Alvim, 8ª edição, 2001, p. 22.

segunda-feira, setembro 26, 2005

Companhia do Eu

Venho apresentar-vos a Companhia do Eu, um novo espaço pelo qual sou
responsável. A Companhia do Eu é um centro de cursos de criatividade e
cultura, oferecendo:
- cursos de escrita criativa e escrita de autobiografia
- cursos de pintura
- cursos de criatividade e cultura para crianças
- cursos de cultura (cursos básicos, breves mas concisos) sobre os mais
diversos temas: História de Lisboa, Islão - História e Cultura, Poesia Portuguesa do Século XX, Vinhos...
- cursos breves sobre um poeta, acompanhados por um especialista: José
Régio, Vitorino Nemésio...

Está tudo no site www.companhiadoeu.com


Grato, com um abraço,

Pedro Sena-Lino

domingo, setembro 25, 2005

TAHAR BEN JELLOUN INSTITUTO FRANCO-PORTUGUÊS

29 de SETEMBRO 2005 às 18h30


TAHAR BEN JELLOUN, autor marroquino de expressão francesa nascido em Fez em 1944, Prémio Goncourt 1987, é autor, entre outros, de O Albergue dos Pobres, Uma Ofuscante Ausência de Luz, Arzila / Estação de Espuma, O Menino de Areia ou O Racismo explicado aos Jovens (galardoado com o 'Prémio da Tolerância Universal' pelo grupo dos Amigos das Nações Unidas, uma organização não governamental que se propõe dar a conhecer os princípios e valores da ONU).
O escritor e psicólogo vem a Portugal para apresentar os seus livros, Amores Feiticeiros e Escrivão Público com a chancela da editora Cavalo de Ferro e estará no Instituto Franco-Português no dia 29 de Setembro às 18h30 para um encontro com o público.

www.ifp-lisboa.com

sexta-feira, setembro 23, 2005

Ainda sobre a Biblioteca...

"A biblioteca não é um sarcófago, é um repositório de ciência viva"

_ 1918 Raúl Proença


Stormy Angel

quinta-feira, setembro 22, 2005

A Biblioteca

"(...) um dos mal-entendidos que dominam a noção de biblioteca é o facto de se pensar que se vai à biblioteca pedir um livro cujo título se conhece. Na verdade acontece muitas vezes ir-se à biblioteca porque se quer um livro cujo título se conhece, mas a principal função da biblioteca, pelo menos a função da biblioteca da minha casa ou da de qualquer amigo que possamos ir visitar, é de descobrir livros de cuja existência não se suspeitava e que, todavia, se revelam extremamente importantes para nós."

in A Biblioteca, Umberto Eco, trad. Maria L. Rodrigues de Freitas, Difel, 5ª ed., 2002.

segunda-feira, setembro 19, 2005

tribalismo

O arquitecto Fernando Távora morreu. Como sempre, foi-se o corpo mas ficou o legado. No passado dia 10 de setembro, sábado, o jornal Público incluiu no suplemento mil folhas um artigo do arq. Alves Costa recordando o falecido colega e amigo. No meio das palavras já gastas dos capitães-arquitectos deste país, aparecia uma fotografia reunindo F. Távora, A. Costa e A. Siza. Recordei alguns pensamentos que tivera no passado, assim que abandonei o curso de Arquitectura da Faculdade do Porto. Observando a imagem, podemos reparar no tribalismo atemporal que percorre o ser humano, desde os primórdios até à actualidade. Ali se encontram os três, de calça clara, sapato sóbrio mas despreocupado, camisa não muito folclórica (não convém a um bom arquitecto armar-se de floreados e ornamentos, sobretudo se for ou seguir a tendência da Escola do Porto), posta para dentro da cinta, que a barriga quer-se crescente e as fraldas de outrora olvidáveis, e os pobres dos óculos, sempre contidos, à beira da queda livre, numa artimanha bastante prática, volteando o pescoço, digna de um bom projectista! Ora... será necessário todo este fenómeno de pequenas identidades e polimentos de imagem para se pertencer a algo? Será necessário clonarmos um ideal repetido (mesmo que negando do auge da nossa maturidade intelectual o evidente), acusarmos esse tribalismo pequenino tão milenar (longínquo mas ao mesmo tempo mais próximo do que nunca) e mesmo assim ladrar por essas avenidas fora que se é muito independente e arquitecto e intelectual e que não se faz parte, mas a sério! acreditem! que não se faz parte de nenhum grupo, qualquer que ele seja, porque, olhem para mim, eu sou independente e o meio não me afecta! (?)
Tudo isto para transmitir que só de olhar para aquela simples fotografia de confraternização fiquei enjoado durante um bom pedaço.
Não mudamos! Espantem-se os néscios, pois o tribalismo continua e bem presente.

Álvaro Seiça Neves

quarta-feira, agosto 31, 2005

socorro a naúfragos

fica a sugestão de leitura da crítica ao livro Hidra:

O Primeiro de Janeiro:
http://www.oprimeirodejaneiro.pt/?op=artigo&sec=d67d8ab4f4c10bf22aa353e27879133c&subsec=f0935e4cd5920aa6c7c996a5ee53a70f&id=c6ad4138713e03840b9c7da08103e3a2

quarta-feira, julho 13, 2005

tradição

para pablo a arena tem sido o fulgor da estética e da beleza. o embaraço dignificante do animal perante o toureiro. para pablo a arena é cromatismo a vibrar. linhas curvas de sedução. um kitsch soberbo. para pablo as touradas são a mais alta manifestação do domínio racional. da casta superior. se não fossem os toureiros há muito que a espécie touro estaria diminuída. ou mesmo extinta. se não fossem os toureiros e os amigos das touradas. se não fossem. ai se não fossem. todo este ritual sublime perder-se-ia para sempre. e para pablo a tradição pesa mais do que tudo. a tradição deve-se manter. repete incessantemente pablo. a tradição deve-se manter. transformada ou não. mas tradição. para pablo a arena é a convergência dos sentidos e do rejubilar humano. para pablo a arena é o olimpo terreno. ali se faz e ali se decide. o sacrifício impera na senda do belo. isso sim. isso é beleza. para pablo o touro é o pólo masculino. para pablo o toureiro é o feminino. e depois nisto tudo. pólo masculino e feminino. naquela dança dionisíaca. depois disto. ai que linda cena de amor carnal mas também espiritual não fazem os dois. é lindo. lindo lindo lindo.
pablo pensava tudo isto até ontem. ontem a terra foi invadida por uma entidade desconhecida. assim como tantos outros. assim. pablo foi deportado para uma gigante arena. à entrada espumava e vacilava de ansiedade. todo ele transpirava dúvida. a certeza das certezas já se esfumara. pablo questionou a entidade. a entidade comunicou-lhe: a tradição deve-se manter.

e.e.

segunda-feira, julho 11, 2005

Safo: novo poema 2600 anos depois

"[You for] the fragrant-blossomed Muses’ lovely gifts
[be zealous,] girls, [and the] clear melodious lyre:

[but my once tender] body old age now
[has seized;] my hair’s turned [white] instead of dark;

my heart’s grown heavy, my knees will not support me,
that once on a time were fleet for the dance as fawns.

This state I oft bemoan; but what’s to do?
Not to grow old, being human, there’s no way.

Tithonus once, the tale was, rose-armed Dawn,
love-smitten, carried off to the world’s end,

handsome and young then, yet in time grey age
o’ertook him, husband of immortal wife."

Safo

(poema restaurado e traduzido por Martin West)

Da poetisa, musa da antiguidade clássica e não só, como ainda se pode ver e ler, conhecem-se três poemas completos, vários aforismos e centenas de fragmentos. Agora, 2600 anos depois, foi encontrado um novo poema sobre a passagem do tempo, o envelhecimento do ser humano, o amor, ...

fica a sugestão dos artigos correspondentes:

The Times Literary Supplement:
http://poetry.about.com/gi/dynamic/offsite.htm?site=http://www.the%2Dtls.co.uk/this%5Fweek/story.aspx%3Fstory%5Fid=2111206

The Guardian:
http://books.guardian.co.uk/news/articles/0%2C6109%2C1513491%2C00.html