terça-feira, setembro 07, 2004

In memoriam

A fotografia é o alinhamento perfeito da cabeça, do olho e do coração.

Photography it´s the perfect alinement of the head, the eye and the heart.

Henri Cartier-Bresson
Agosto... é... a gosto... é a miséria, por isso, perdões aos mandriões.

quarta-feira, julho 28, 2004

Amoródio

Coimbra não me deixou saudades. Mas tenho de admitir que é uma cidade muito intrigante. Parece ter o dom de absorver aqueles que lá entram, manipulando-lhes a mente e obrigando-os a seguir as suas regras, a gostar de si. Os que se recusam a obedecer-lhe são postos de parte. Este extremismo só pode ser devido aos que a sustentam a cidade que encerra D. Afonso Henriques, com uma devoção febril que roça o fanatismo.
Ao entrar em Coimbra é impossível deixar de sentir a aura que a rodeia, delimitando a fronteira entre ela e o mundo. Em criança, lembro-me de penetrar neste local, deixando-me uma sensação ambígua de simultâneo mal-estar e segurança. Veja-se que as minhas idas a Coimbra enquanto criança estavam sempre associadas a entradas de urgência no Hospital Pediátrico, pelo que talvez este sentimento faça sentido anamneticamente falando. Afinal, eu sempre entrei em Coimbra em sofrimento e saí de lá novamente confortável comigo mesmo.
E isso sempre me acompanhou. Só assim se pode compreender o sentimento opressivo e desconfortável que senti ao chegar a Coimbra para o meu primeiro dia de Faculdade e da minha felicidade ao voltar para Leiria. A minha relação de amoródio com a cidade que vive de estudantes começou muito antes de eu me aperceber disso.
Aliás, reflectindo no que disse atrás, não creio que ao regressar a Leiria eu estivesse feliz por voltar ao lar. Eu estava era aliviado por sair de Coimbra. Torna-se agora óbvio, perante todos os sentimentos contraditórios que surgiram durante a minha estadia em Coimbra, que eu nunca poderia sentir-me bem naquele local, rodeado daquela gente. Estava condenado a entrar em conflito comigo mesmo, numa disputa algo esquizofrénica entre a minha repulsa atractiva e a minha atracção repulsiva por esta entidade.
Nunca duvidei, desde que lá entrei pela primeira vez, que o meu lugar não era ali. Sempre o soube, apesar de tentar convencer-me a mim mesmo do contrário. Cada vez que me vergava perante o seu poder, tentando submeter-me às suas regras e caprichos, a cidade ria-se do meu esforço patético de integração. Não tinha qualquer problema em espancar-me de forma humilhante, deixando-me debilitado e incapaz de raciocinar, imaginar, viver. Tempos estranhos, aqueles…
Agora, torna-se um pouco mais fácil passar em Coimbra. Mas não sei se alguma vez conseguirei exorcizar as marcas das feridas que essa prostituta requintada pseudo-intelectual provocou no meu eu. Muito provavelmente, não. Afinal, tu és o meu amoródio. E tens mais encanto na hora da despedida.

Ramona

quinta-feira, julho 15, 2004

Is there any body out there?
Is there any body out there?

quinta-feira, junho 17, 2004

POETRIX

Arquimedes

Sirvam-se do meu cérebro!
relembrar-vos-ei
o peso do ouro no estômago

ASN

segunda-feira, junho 14, 2004

Sémengrafia

lado
a
lado
conversavam
dois fotógrafos crespos no final do dia.
os dois coçavam as faces
faces de escroto
esbranquiçadas e pálidas.
na pele de galinha depenada
afloravam vasos sanguíneos finíssimos
faces de escroto
com uns rebentos de barba.
onde
a
onde
os tubérculos afloravam.

lado
a
lado
com as máquinas coladas
conversavam.
e
num espasmo horizontal
duas lágrimas de sémen
tocaram-se
quando as duas máquinas
erectas
se beijaram.

ASN

segunda-feira, maio 31, 2004

Mutação

entra no corredor frigorífico
o outro corpo talvez
espero cá fora. com receio.
há avisos de claustrofobia náuseas
pesadelos brancos.
há avisos. espero cá fora.
o outro corpo percorre os plásticos
cristalizados.
surpreende-o o nevoeiro imposto
as vozes difusas da manhã
o alvoroço mudo da madrugada.
desintegra-se em partículas
de plasma humedecido
e injecta-se de vazio frio.
no calor da descoberta
respira. respira subatomicamente
e caminha.
observa uma luz exterior que se projecta nos confins do espaço.
e caminha. perde as referências.
os seus outros amantes dispersam-se.
vestidos de preto perdem-se estonteados
no horizonte branco.
perdem-se. perde-se. estonteado.
e caminha
respirando um doce pó de amianto.
magnetizado pela bruma fecha os olhos.
abre-os num ímpeto claro
com as retinas coladas ao vidro.
o exterior é o seu interior
e nisto
perde-se novamente.
a bruma é denso pensamento.
tempo retido na aurora.

controlada a fobia branca
encolhe-se para a saída.
mas a sala ilimitada dispara
e é metralhado por um silêncio
gritante.
flashes ambíguos retalhados
de espuma. agonia esparsa
que se multiplica na espiral escura
dos seus olhos fechados. agonia. intermitente.
respira o passado sobreposto
e ali parado deixa-se engasgar
pelos cristais estroboscópicos
e costura uma passagem interior
soluçando tempo
e sente-se como uma mosca
dentro de uma lâmpada de néon.

despe o terror confuso de estar
na lama escorregadia do passado
e atira-se
qual fera enjaulada
para a porta final.
cá fora espero-o.
há avisos e pesadelos brancos
em convalescência.
vejo-o contra o vidro e grito.
nesse momento recordo
como uma cassete a rebobinar
toda a viagem que descrevi.
acordo estatelado frente à sala.

o caminho é mutação.
respiro triunfante a unidade.
o outro corpo talvez
uniu-se a mim.
cá fora sou condicionado e orgânico
mas sei
agora
que o meu interior é experiência sem fim.

Álvaro Seiça Neves

(A partir de Dazed & Confused, João Paulo Feliciano, 2004.)

segunda-feira, maio 24, 2004

Polegar

Agora que olhava para a sua mão como uma revelação já esquecida, arrepiava-se.
O seu polegar era mínimo. Feio. Movimentava-se com uma disciplina autónoma, como se a consciência morasse ali. Lembrou-se daquela cantaroleta da falange, falanginha, falangeta. Coisa de médico, mnemónica, pois.
A unha encrostava-se numa cabeça larga, semelhante à sua glande, com o prepúcio delgado. Logo a seguir à articulação, um curto troço reduzia a falanginha. A falange enterrava-se no gomo muscular da mão. Olhava para o seu polegar e arrepiava-se.
Crescera não um dedo comum mas sim um pénis atrofiado e balbuciante. Para seu desespero, trazia cravada na mão a sua identidade masculina. Não existia intimidade. Ele era um corpo nu, apesar de vestido.
Olhou mais uma vez e chorou a exposição erecta da sua impaciência. Ao mesmo tempo, o polegar regurgitou e sorriu-lhe, sarcasticamente.

e.e.

quinta-feira, maio 20, 2004

Nova Esquizofrenia Contemporânea - LINGUISTAS

Imaginem que dividisse a palavra amor em morfemas. A cada um lhes daria novas significações. Reparem como a palavra já irremediavelmente gasta morre e renasce como um signo puramente fechado num mundo paralelo. Um morto vivo linguístico. Ao morfema r corresponderá vos, ao morfema o um hífen. Digo que ao morfema restante corresponderá a forma verbal flexionada fodei. Não, queiram desculpar, senhores, mas não há motivo para ofensas nem há causa para qualquer alarme. É algo de meramente linguístico. Sentai-vos linguisticamente, por Saussure!, e reparem como faço dançar esse novo aborto semântico: amor amor amor amor. O mesmo seria dizer-se: fodei-vos fodei-vos fodei-vos fodei-vos. Interessante, não? É um pequeno novo facto de linguagem. Muito pequenino, concedo-vos. Mas talvez as maiores revoluções nunca sejam muito grandes, meus senhores.

(...)
Amor [Fodei-vos], [inserir o nome da pessoa amada]!
É amor [fodei-vos] o que vos digo em mui grã coita minha!
Pois que amor [fodei-vos] é sentimento fidalgo!
Eu, sôfrego, que vos canto – amor [fodei-vos]!
(...)

(variante de protótipo de Cancioneiro do séc. XIV - fragmento)


Reparem como a tradição se rescreve metalinguisticamente. Uma palavra moribunda arrastada pelos séculos fora pode sempre renascer, como a fénix imemorial.

Meus senhores, e se eu dissesse que a palavra morte significa cabrões? Imaginem os efeitos retroactivos. Pensem agora em todo o Romantismo Europeu, em todo aquele sofrimento inútil – como se torna em algo dinâmico. Não se trata meramente de manipular os mortos pela História fora, não é esse o caso. Não. É antes chamar-lhes de cabrões.

Concordo com os senhores, talvez seja simplesmente um terrível mau gosto.

Amor Morte! – Fodei-vos Cabrões!

Mas concordem comigo nisto, por favor: concordem que a língua morreu. Eu próprio desespero em busca daquele sopro próprio e individual com que dissecar solitariamente o meu cérebro. Por vezes, a lentidão dos séculos entranha-se-me talmente que tudo se reduz a um único grito pelo meio da poeira. Pelas veredas mais recônditas, parte do meu ser grunhe – mas a tradição é maquinal, não se impressiona com casinhotas de lama e pés de porco segurando estiletes. Não será com um transplante bovino que se salvará o cérebro do Poeta no novo século.

Fodei-vos Cabrões!

Mau gosto, senhores. Terrível mau gosto.


Bruno Ribeiro de Almeida